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Segue mais um "tanka" de minha autoria, com a foto de um belíssimo jardim japonês:


"Com as lágrimas
De sangue que manavam
De seu coração
Limpo, compôs o poema
De sua vida e sua morte".


Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Santo Amaro (São Paulo), 11 de março de 2016.




























































***


Quando, ainda criança, te deixei, Mãe,
Parti-te o coração.
Sem asas, parti para longe, voei, mãe!...
Na pequena mala,
Entre as parcas peças de roupa,
Cinco latas de sardinhas escondeste, mãe!
Na alma, levava toda a esperança do mundo, mãe!
Os Invernos rigorosos eram frios, mãe!
Sentia a falta do teu abraço,
Do teu calor,
Congelava na rua, mãe!
Como agasalho,
As estrelas, lá do alto, olhavam-me.
Como tecto,
Tapava-me o escuro manto do céu, mãe!
Em dias chuvosos, mãe!
Colocava nos sapatos gastos,
Palmilhas feitas de papel de jornal
Que a água indiferente desfazia.
Os pés molhados gelavam de frio, mãe!
Perdido,
Percorri cidades, países e continentes, mãe!
Sem chaves, tentava abrir as portas de vida,
Esforçando-me em vão.
Silenciosas e imóveis, ignoravam-me,
Permaneciam fechadas, mãe!
Paguei os pecados do mundo, mãe!
As sardinhas mataram-me a fome
Quando desesperado as comi,
A sede, saciei-a, com as lágrimas que bebi.
Que saudades tinha de ti, mãe!
Com o passar do tempo, cresci, mãe!
Com sapatos novos,
Abri as portas, mãe!
Raios de Sol aqueceram-me o corpo,
Iluminaram-me a alma,
Preencheram-me a vida, mãe!
Longos anos passaram, mãe!
Um dia regressei.
Trazia a mala repleta de ternura,
Lágrimas, amor e dor.
Abracei-te forte,
Para não mais te deixar, mãe!
Nunca soubeste que te levei, mãe!
Tu foste a força que me fez sobreviver
Ao teres sofrido comigo, mãe!
No olhar da fotografia que nesse dia me tiraste,
Estão inscritos em tristeza todos os momentos
Que sem ti vivi, querida Mãe!
Sérgio Cruz - 06/03/16





SONETO LXXXIV


O corpo marcial vai tão cansado
Na cama de espinhos escondidos
Sobre rochedos, jaz assim prostrado...
Em arcadas, com braços doloridos...

Em cobras, com os corpos atirados
Cemitério: penedos proibidos
Jazem mortas; os corpos condenados
Contíguos do guerreiro tão perdidos.


E o forte lutador está caído...
Sob solto sol, o rúbido e ardente,
Destino pensa que talvez morrido


Estivesse, e queda-se contente:
Ledo engano: tudo é traído!
O vão guerreiro torna-se serpente!


a 29 de fevereiro de 2016.




Carlos Heinig




Acorde-me, estranha!
E sussurre em meu ouvido
Que hoje pode ser para sempre.
Aperte-me como você aperta
Seu copo cheio de bourbon....
Estamos tão longe:
Você estava certa!
Não nos reconhecemos mais.

Então... podemos começar tudo de novo!
- Hei, você ainda tem bala?
Não fique arrependida...
Porque a dose não foi fatal:
Temos tantas outras tentativas...
Para nos frustramos até o final.
Você é uma menina má:
Precisa buscar algo para se machucar...
Ninguém pode ser mais louco que nós:
Construímos paredes que não existem
Entre nossas bocas:
Teu batom molhado de uísque...
Sua boca é a minha piscina:
Preciso pular nela!
Eu posso ter sonhos à noite:
Mas, vou acordar com olhos fechados.
Você e aquelas outras garotas
Que eu havia pensado...
Pararam, entre a neblina da noite,
E fumaram. Como quem quer esquecer
Que o hoje pode ser para sempre...
Mas, que a dose de bourbon, não.


a 27 de fevereiro de 2016.



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