domingo, 1 de janeiro de 2017

Podes tentar evitar os sofrimentos do mundo, isso é possível e até está de acordo com a tua natureza, mas, se calhar, o único sofrimento que podes evitar é o de andar a tentar evitar os sofrimentos do mundo.
Franz Kafka

Du kannst Dich zurückhalten von den Leiden der Welt, das ist Dir freigestellt und entspricht Deiner Natur, aber vielleicht ist gerade dieses Zurückhalten das einzige Leid, das Du vermeiden könntest.
The Zürau Aphorisms





Michel-Richard Delalande
Um dos grandes compositores da corte de Luís XIV.Para os meus amigos que se dedicam a isto: a estrutura das cantatas de Bach e dos Oratórios de Haendel devem-se muito a Delalande.



O TROPEÇO DE EURÍDICEE

sob a negra gruta cavernosa,
Amantes, cegos, de mãos dadas,
Num negrume que esconde as pegadas,...
Sob os olhos de Perséfone maldosa.

Que tropeça donzela na vaidade;
E no tropeço, quase cai ao escuro,
Tocando o ventre neste chão impuro,
O olhar de Orpheu é liberdade!

A perda necessária e vital!
Impaciente Orpheu que cai em prantos
Não vê que a solidão, sua total...

Disperso já de seus próprios encantos
Inspira a lírica já com todo o mal
E todo o mal já transforma em puros cantos.

a28 de dezembro de 2016.
Carolvs Edvardvs

Paysage avec Orphée et Eurydice, Nicolas Poussin





Jorge Luis Borges

Entrevista a Jorge Luis Borges en 'A Fondo' (1976)






terça-feira, 26 de abril de 2016


“Conhecimento” envolve sempre a interação entre um “sujeito” e um “objeto”, aquele é o que conhece e este o conhecido.

                Convém distinguir, de forma rápida,  os diversos tipos de conhecimento:

Conhecimento por contacto – como quando perguntamos se “conhece alguém” ou se “conhece uma certa cidade”.

Conhecimento prático – no sentido de saber fazer alguma coisa: tocar piano ou arranjar torneiras.

Conhecimento proposicional ou de verdades. Aqui temos a produção de juízos ou enunciados verbais. O conhecimento, neste sentido, é verdadeiro ou falso.

 

A estrutura e origem deste tipo de conhecimento é atribuída normalmente a Platão no famoso diálogo “Teeteto”( Θεαίτητος), dedicado, exclusivamente, ao problema da “natureza do conhecimento”.

Nota: para muitos platonistas, Platão, são só os diálogos, o resto é espúrio (a desenvolver).

Recomendo, então, a leitura e estudo do Teeteto.

Para mim, a secção final está escrita com um sentido de humor ímpar. Nesta, é comparada a mente a um aviário. Faz-se a distinção entre “ter” (κεκτῆσθαι)  e “possuir” (sἔχειν) – o sujeito cognoscente é comparado a um caçador de pássaros e sujeito a confundir pombas com rolas.

Recomendo a leitura de dois textos:

Elandro Luis Zeni – Conhecimento e linguagem, um estudo do Teeteto de Platão

Anderson Borges – Razão e sensação no Teeteto de Platão

Há uma tradução (livre) brasileira e o grande clássico em língua portuguesa da gulbenkian.giro dois te li

sábado, 9 de abril de 2016

Quando alguém se refere à técnica e à tecnologia como um excelente "meio", já sei que essa pessoa foi totalmente ultrapassada e já não entende nada do que se passa à sua volta.
A "técnica" e a tecnologia são as mesmas mas têm um novo papel: afectam indelevelmente a forma como se constitui a nossa experiência do mundo.


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Parece-me que o segredo da vida consiste em aceitá-la tal como ela é.
São João da Cruz


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No fundo, o "economicês" é uma forma arguta de nos afastar do debate, participação e decisões políticas.
Se tudo depende do "Banco Central" e do "PIB" e do "XXPR" o que é que eu posso dizer ou fazer quanto a isso? Estão a convidar-me a esquecer isso e ir ver o futebol? Desde sempre que se sabe que, tal como os judeus, onde há dois economistas há três opiniões.
"Visões economómicas" apoiadas em estatísticas? a estatística, com os mesmíssimos dados, diz tudo o que se quiser ...e o seu contrário...
Ficam as decisões todas entregues àqueles senhores que sabem imenso sobre "ciência bancária" e os idiotas (como eu) ficam condenados a repetir argumentos como se soubessem alguma coisa sobre o assunto. Perfazendo dois conjuntos de idiotas. Agora a minha vida são os bancos?
Assim, só predomina a política sobre a economia nos extremos políticos. Depois têm medo "do extremismo"... como eu os compreendo...
Transmitiram-nos a ilusão que "está fora do nosso controlo", mas depois, mesmo sendo bons alunos, acabamos em crises profundas. Esse é mesmo o problema "deles": a política tem um elemento final que está sempre dentro do nosso controlo - apesar de todos os jogos de viciação mediática.
Citando Lenine: essa vanguarda é muito ingénua... Não compreende sequer que é tarefa nossa conferir à própria luta económica um caráter político.

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Sob o manto da "economia", com os seus labirintos de abreviaturas enigmáticas, escondem-se as mais abjetas ideologias. Como dizia Lenine: não somos crianças que podem ser alimentadas apenas com a "sopinha" da política "económica"


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A história que está presente em toda a profundidade da sociedade tende a perder-se na superfície.
Guy Debord

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Sócrates era mesmo simpático e sociável, se fosse hoje teria 5 000 amigos no facebook. Sócrates sorria, divertia-se, tinha grandes conversas com toda a gente, Kierkegaard diz mesmo que ele era um "sedutor". Sempre em festas, banquetes, mercados.
E, no fim, apesar da coragem com que bebe a cicuta, desilude-me!!!
Então não é que a última frase dele é "Críton, devo um galo a Esculápio, vais lembrar-te de pagar a dívida" ?
Esculápio é o deus da medicina, portanto Sócrates conside...ra a morte um bem, a cura dessa horrível doença que é a vida. Que desilusão.
Prefiro Jesus, nunca enganou ninguém, não andou às palmadinhas nas costas, deu umas chicotadas nos interesseiros e vendidos, nunca sorriu, não andou às piadinhas e com conversas para agradar a todos. Fazia uns discursos por vezes um pouco longos e enigmáticos, mas desejou, se fosse possível, viver, foi crucificado de forma bárbara e ainda pediu perdão pelos ignorantes. Apesar da sua vida ter sido dramática, amou a vida, fez tudo para nos dar todas as formas de vida. Pelo menos, com a sua morte, para alguns de nós ofereceu-se como "sentido de vida".
É por isso que não gosto nada destes simpáticos e sorridentes que me aparecem, acabam sempre por me desiludir.
Prefiro Jesus.

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Todo o espírito profundo necessita de uma máscara.
Mas, entretanto, em torno de todo espírito profundo forma-se
constantemente uma máscara graças à interpretação continuamente falsa, isto é, superficial, dada a todas as suas
palavras e a todas manifestações da sua vida.
Para Além do Bem e do Mal...
F Nietzsche

Jeder tiefe Geist braucht eine Maske: mehr
noch, um jeden tiefen Geist wächst fortwährend eine
Maske, Dank der beständig falschen, nämlich flachen
Auslegung jedes Wortes, jedes Schrittes, jedes Lebens-
Zeichens, das er giebt —

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Dicionário: "Concurso Público"
Chama-se "concurso público" à abertura formal de acordo com a lei de candidaturas para uma dada posição ou outro.
A posição já está definida previamente por toda a mafia que vai tomar a decisão sobre os candidatos. A dita posição é normalmente entregue por razões partidárias, familiares, devolução de favores, tráfico de influências, etc.
Pode ser substituída por "pró-forma" ou "para inglês ver".
Válido em todos os países de língua portuguesa e para todos os quadrantes políticos

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1 de Abril

Não vale a pena ler grandes obras literárias no original, as traduções bastam. No caso, por exemplo, do Joyce qualquer tradução é perfeitamente equivalente à obra original.
É tão fácil traduzir poesia. Os grandes poetas russos e alemães, por exemplo, até soam melhor em traduções para português ou inglês.
No fundo, não há diferenças nenhumas culturais, as pessoas são todas iguais em todo mundo, o que sentem e como vêem o mundo é igual. "Pão" é "pão" em qualquer língua.

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Sou muito influenciado por Bergson e pelo existencialismo: olhar para si e pensar-se, olhar para o mundo e pensá-lo, agir da "melhor forma". É, basicamente, isso a filosofia... e não a construção de um "sistema".


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“A investigação mais apaixonada da embriaguez produzida pelo haxixe nos ensina menos sobre o pensamento (que é um narcótico eminente) que a iluminação profana do pensamento pode ensinar-nos sobre a embriaguez do haxixe. O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flânerie, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos. Para não falar da mais terrível de todas as drogas – nós mesmos – que tomamos quando estamos sós.”
Walter Benjamin, Obras Escolhidas, “O surrealismo: o último instantâneo da inteligência europeia”


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Não é só amor ao grego ático (e koiné) e ao latim da minha infância, é também amor à Cultura e, sobretudo, à Filosofia deste período.
A Filosofia Antiga (Alte) é uma "arte de viver", a filosofia moderna constrói-se numa linguagem técnica reservada aos especialistas.
Por metonímia, todos os que têm um discurso filosófico divorciado das suas vidas e da vida, são "sofistas".
...
É por isso que quando lemos alguma coisa de alguém com a qual concordamos queremos sempre, logo de seguida, saber um pouco a sua biografia - etimologicamente: como se "escreve a sua vida" (γραϕος , βίος).
Procuramos nessa "biografia" a autenticidade e é isso que nos pode levar a gostar ao mesmo tempo de Blondel, Lavelle e Sartre.

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Abusei da teologia e dos Requiem na Páscoa. Agora estou a equilibrar com algumas doses de materialismo com Epícuro, racionalismo com Espinoza e humanismo com Montaigne.
Chamemos-lhe "restrição de doces".

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Tudo o que é essencial escapa às decisões e respostas humanas.
Esta noite vão prender Jesus. Enquanto houver Tempo Jesus é preso nesta noite litúrgica. Prender Jesus é como a vida: não tem sentido. Por isso, vou fazer companhia espiritual ao "prisioneiro do Sentido".
Os terroristas estão cheios de certezas. Têm tantas certezas que provocam sofrimento e morte a si mesmos e aos outros. O outro deve sofrer pelas certezas deles. A certeza que leva ao ódio.
...
Eu sou um terrorista das certezas, gosto de viver no vazio inquietante das dúvidas, no Deus que me interpela, me perturba e que me responde com murmúrios de silêncio. A incerteza que leva ao amor... até ao fim. É tão fácil “amar” condicional e provisoriamente.
Serei companheiro do sofrimento. As minhas muitas incertezas levam-me a trocar o consumismo pela contemplação interior.
Esta noite...
“εἰς τέλος ἠγάπησεν αὐτούς” (amou-os até ao fim)
Boa Páscoa
Christ at the Column, 1607, Caravaggio


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Sócrates é eterno porque desperta a consciência moral do Ocidente . Género literário: diálogos.
Jesus Cristo é eterno porque é a resposta à necessidade humana de salvação. Género literário: Evangelhos.
Eu sou efémero porque só escrevo estes disparates. Género literário: facebook.


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Esta misteriosa conjunção entre o acaso e certas necessidades interiores que vão dando forma ao que chamamos "destino".


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Sou católico mas...
E tudo o que se segue ao "mas" dá-me sempre imensas saudades dos ateus. Esses, pelo menos, graças a Deus, não andam a tentar enganar ninguém... nem a si mesmos...


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Adoro os filmes e as novelas.
Quando alguém está muito doente, no fim, aparece sempre um medicamento milagroso ou a pessoa melhora.
Pais e filhos abraçam-se, choram e retomam facilmente uma relação que nunca tiveram.
Quando alguém está na miséria aparece sempre um amigo que o ajuda.
Para as crianças mais isoladas aparece sempre uma criança bondosa que lhe dá atenção....
Se a criança é vítima de bullying aparece sempre um fortalhaço e justo que mete os maus no lugar.
Quando um animal é abandonado aparece logo um lar magnífico de acolhimento.
As meninas feias arranjam namorado.
As filhas dão-se tão bem com as mães e as irmãs.
Os maus alunos são valorizados pelo seu coração.
Os homens ajudam as mulheres sem segundas intenções.
Acaba sempre por prevalecer a justiça nos processos jurídicos.
Os "maus" são sempre apanhados no fim.

Que pena isto tudo ser tão diferente da vida...


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"A mistura do verdadeiro e do falso é muito mais tóxico que o falso puro"
Paul Valéry
'Le mélange de vrai et de faux est énormément plus toxique que le faux pur.'


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O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.
Arthur Rimbaud


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Roma Antiga. A arma fácil da conspiração e manipulação. Cartas anónimas, forjadas, alteradas. Embuste. Discursos emotivos abusando da ignorância, irracionalidade e sentimentalismo das massas. Sofistas engravatados, falácias tentadoras. Ouvir dizer que ele disse que disse... aceitar por facto o que "ouviu dizer". Fidelidade e traição.
A fácil manipulação das massas.
Retórica.
Para a turba todos os simulacros parecem tão reais.
Avança o facilitador, prepara a cena e entra "o ...honrado". Um comboio de "honrados", uma luta entre "honrados". Nunca vi tanto homem honrado de um lado e do outro. Catervas de honrados contra súcias de honestos.
O sangue do povo ao serviço da ambição pessoal.

Yet Brutus says he was ambitious,
And Brutus is an honorable man. (3. 2.)
William Shakespeare


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... a proliferação das mídias audiovisuais e interativas subverteu as vivências temporais, contribuindo para comprimir as durações, desmaterializar o espaço e expropriar certas zonas da experiência subjetiva.
...Entre outros fenômenos que marcam o espírito desta época, Virilio examina o paradoxo entre velocidade e inércia; as transformações das experiências em comum, suscitadas pelo COMPARTILHAMENTO COMPULSÓRIO DE INFORMAÇÕES e pelos MONITORAMENTOS CONTÍNUOS; as implicações d...a virtualização que acompanhou o desenvolvimento da vida on-line, bem como as novas formas de isolamento e dispersão que vieram junto com a expansão das redes digitais e a multiplicação das telas...
...esse modo disruptivo ou “inútil” de experimentar o tempo foi modulado por um arsenal de máquinas da visão que tenderam a canalizar essa breve descontinuidade por meio de velozes efeitos de montagem, tornando cada vez mais obsoletos os exercícios do olhar contemplativo e da vida imaginativa...
Essa logística de percepção tem acelerado os ritmos e racionalizado o que é subjetivo, como parte de um processo maior de HOMOGENEIZAÇÃO SENSORIAL, generalizando assim um tipo de temporalidade em que a interioridade psicológica é continuamente neutralizada. Nessa tentativa de regularizar os biorritmos com vistas a torná-los compatíveis com as novas exigências sociais, começou a ser ofertado um crescente menu de próteses – desde os dispositivos da ubiquidade até os que permitem alterações metabólicas, ajustes no humor e turbinações neurocognitivas.
"sociedade de controle"
 https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1161198733901336&set=a.215572555130630.54246.100000336628979&type=3&theater


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quinta-feira, 10 de março de 2016

A anatomia da melancolia
Um labirinto verbal que é um consolo para a alma. Um bálsamo literário.
Um hino ao "prazer de ler".
"the greatest work of prose of the greatest period of English prose-writing”







Anatomia da Melancolia










Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut justificeris in sermonibus tuis, et vincas cum judicaris.
Ecce enim in iniquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi.
Asperges me hysopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea justitiam tuam.
Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Ierusalem.
Tunc acceptabis sacrificium justitiae, oblationes, et holocausta: tunc imponent super altare tuum vitulos.