terça-feira, 26 de abril de 2016


“Conhecimento” envolve sempre a interação entre um “sujeito” e um “objeto”, aquele é o que conhece e este o conhecido.

                Convém distinguir, de forma rápida,  os diversos tipos de conhecimento:

Conhecimento por contacto – como quando perguntamos se “conhece alguém” ou se “conhece uma certa cidade”.

Conhecimento prático – no sentido de saber fazer alguma coisa: tocar piano ou arranjar torneiras.

Conhecimento proposicional ou de verdades. Aqui temos a produção de juízos ou enunciados verbais. O conhecimento, neste sentido, é verdadeiro ou falso.

 

A estrutura e origem deste tipo de conhecimento é atribuída normalmente a Platão no famoso diálogo “Teeteto”( Θεαίτητος), dedicado, exclusivamente, ao problema da “natureza do conhecimento”.

Nota: para muitos platonistas, Platão, são só os diálogos, o resto é espúrio (a desenvolver).

Recomendo, então, a leitura e estudo do Teeteto.

Para mim, a secção final está escrita com um sentido de humor ímpar. Nesta, é comparada a mente a um aviário. Faz-se a distinção entre “ter” (κεκτῆσθαι)  e “possuir” (sἔχειν) – o sujeito cognoscente é comparado a um caçador de pássaros e sujeito a confundir pombas com rolas.

Recomendo a leitura de dois textos:

Elandro Luis Zeni – Conhecimento e linguagem, um estudo do Teeteto de Platão

Anderson Borges – Razão e sensação no Teeteto de Platão

Há uma tradução (livre) brasileira e o grande clássico em língua portuguesa da gulbenkian.giro dois te li

sábado, 9 de abril de 2016

Quando alguém se refere à técnica e à tecnologia como um excelente "meio", já sei que essa pessoa foi totalmente ultrapassada e já não entende nada do que se passa à sua volta.
A "técnica" e a tecnologia são as mesmas mas têm um novo papel: afectam indelevelmente a forma como se constitui a nossa experiência do mundo.


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Parece-me que o segredo da vida consiste em aceitá-la tal como ela é.
São João da Cruz


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No fundo, o "economicês" é uma forma arguta de nos afastar do debate, participação e decisões políticas.
Se tudo depende do "Banco Central" e do "PIB" e do "XXPR" o que é que eu posso dizer ou fazer quanto a isso? Estão a convidar-me a esquecer isso e ir ver o futebol? Desde sempre que se sabe que, tal como os judeus, onde há dois economistas há três opiniões.
"Visões economómicas" apoiadas em estatísticas? a estatística, com os mesmíssimos dados, diz tudo o que se quiser ...e o seu contrário...
Ficam as decisões todas entregues àqueles senhores que sabem imenso sobre "ciência bancária" e os idiotas (como eu) ficam condenados a repetir argumentos como se soubessem alguma coisa sobre o assunto. Perfazendo dois conjuntos de idiotas. Agora a minha vida são os bancos?
Assim, só predomina a política sobre a economia nos extremos políticos. Depois têm medo "do extremismo"... como eu os compreendo...
Transmitiram-nos a ilusão que "está fora do nosso controlo", mas depois, mesmo sendo bons alunos, acabamos em crises profundas. Esse é mesmo o problema "deles": a política tem um elemento final que está sempre dentro do nosso controlo - apesar de todos os jogos de viciação mediática.
Citando Lenine: essa vanguarda é muito ingénua... Não compreende sequer que é tarefa nossa conferir à própria luta económica um caráter político.

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Sob o manto da "economia", com os seus labirintos de abreviaturas enigmáticas, escondem-se as mais abjetas ideologias. Como dizia Lenine: não somos crianças que podem ser alimentadas apenas com a "sopinha" da política "económica"


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A história que está presente em toda a profundidade da sociedade tende a perder-se na superfície.
Guy Debord

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Sócrates era mesmo simpático e sociável, se fosse hoje teria 5 000 amigos no facebook. Sócrates sorria, divertia-se, tinha grandes conversas com toda a gente, Kierkegaard diz mesmo que ele era um "sedutor". Sempre em festas, banquetes, mercados.
E, no fim, apesar da coragem com que bebe a cicuta, desilude-me!!!
Então não é que a última frase dele é "Críton, devo um galo a Esculápio, vais lembrar-te de pagar a dívida" ?
Esculápio é o deus da medicina, portanto Sócrates conside...ra a morte um bem, a cura dessa horrível doença que é a vida. Que desilusão.
Prefiro Jesus, nunca enganou ninguém, não andou às palmadinhas nas costas, deu umas chicotadas nos interesseiros e vendidos, nunca sorriu, não andou às piadinhas e com conversas para agradar a todos. Fazia uns discursos por vezes um pouco longos e enigmáticos, mas desejou, se fosse possível, viver, foi crucificado de forma bárbara e ainda pediu perdão pelos ignorantes. Apesar da sua vida ter sido dramática, amou a vida, fez tudo para nos dar todas as formas de vida. Pelo menos, com a sua morte, para alguns de nós ofereceu-se como "sentido de vida".
É por isso que não gosto nada destes simpáticos e sorridentes que me aparecem, acabam sempre por me desiludir.
Prefiro Jesus.

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Todo o espírito profundo necessita de uma máscara.
Mas, entretanto, em torno de todo espírito profundo forma-se
constantemente uma máscara graças à interpretação continuamente falsa, isto é, superficial, dada a todas as suas
palavras e a todas manifestações da sua vida.
Para Além do Bem e do Mal...
F Nietzsche

Jeder tiefe Geist braucht eine Maske: mehr
noch, um jeden tiefen Geist wächst fortwährend eine
Maske, Dank der beständig falschen, nämlich flachen
Auslegung jedes Wortes, jedes Schrittes, jedes Lebens-
Zeichens, das er giebt —

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Dicionário: "Concurso Público"
Chama-se "concurso público" à abertura formal de acordo com a lei de candidaturas para uma dada posição ou outro.
A posição já está definida previamente por toda a mafia que vai tomar a decisão sobre os candidatos. A dita posição é normalmente entregue por razões partidárias, familiares, devolução de favores, tráfico de influências, etc.
Pode ser substituída por "pró-forma" ou "para inglês ver".
Válido em todos os países de língua portuguesa e para todos os quadrantes políticos

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1 de Abril

Não vale a pena ler grandes obras literárias no original, as traduções bastam. No caso, por exemplo, do Joyce qualquer tradução é perfeitamente equivalente à obra original.
É tão fácil traduzir poesia. Os grandes poetas russos e alemães, por exemplo, até soam melhor em traduções para português ou inglês.
No fundo, não há diferenças nenhumas culturais, as pessoas são todas iguais em todo mundo, o que sentem e como vêem o mundo é igual. "Pão" é "pão" em qualquer língua.

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Sou muito influenciado por Bergson e pelo existencialismo: olhar para si e pensar-se, olhar para o mundo e pensá-lo, agir da "melhor forma". É, basicamente, isso a filosofia... e não a construção de um "sistema".


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“A investigação mais apaixonada da embriaguez produzida pelo haxixe nos ensina menos sobre o pensamento (que é um narcótico eminente) que a iluminação profana do pensamento pode ensinar-nos sobre a embriaguez do haxixe. O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flânerie, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos. Para não falar da mais terrível de todas as drogas – nós mesmos – que tomamos quando estamos sós.”
Walter Benjamin, Obras Escolhidas, “O surrealismo: o último instantâneo da inteligência europeia”


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Não é só amor ao grego ático (e koiné) e ao latim da minha infância, é também amor à Cultura e, sobretudo, à Filosofia deste período.
A Filosofia Antiga (Alte) é uma "arte de viver", a filosofia moderna constrói-se numa linguagem técnica reservada aos especialistas.
Por metonímia, todos os que têm um discurso filosófico divorciado das suas vidas e da vida, são "sofistas".
...
É por isso que quando lemos alguma coisa de alguém com a qual concordamos queremos sempre, logo de seguida, saber um pouco a sua biografia - etimologicamente: como se "escreve a sua vida" (γραϕος , βίος).
Procuramos nessa "biografia" a autenticidade e é isso que nos pode levar a gostar ao mesmo tempo de Blondel, Lavelle e Sartre.

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Abusei da teologia e dos Requiem na Páscoa. Agora estou a equilibrar com algumas doses de materialismo com Epícuro, racionalismo com Espinoza e humanismo com Montaigne.
Chamemos-lhe "restrição de doces".

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Tudo o que é essencial escapa às decisões e respostas humanas.
Esta noite vão prender Jesus. Enquanto houver Tempo Jesus é preso nesta noite litúrgica. Prender Jesus é como a vida: não tem sentido. Por isso, vou fazer companhia espiritual ao "prisioneiro do Sentido".
Os terroristas estão cheios de certezas. Têm tantas certezas que provocam sofrimento e morte a si mesmos e aos outros. O outro deve sofrer pelas certezas deles. A certeza que leva ao ódio.
...
Eu sou um terrorista das certezas, gosto de viver no vazio inquietante das dúvidas, no Deus que me interpela, me perturba e que me responde com murmúrios de silêncio. A incerteza que leva ao amor... até ao fim. É tão fácil “amar” condicional e provisoriamente.
Serei companheiro do sofrimento. As minhas muitas incertezas levam-me a trocar o consumismo pela contemplação interior.
Esta noite...
“εἰς τέλος ἠγάπησεν αὐτούς” (amou-os até ao fim)
Boa Páscoa
Christ at the Column, 1607, Caravaggio


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Sócrates é eterno porque desperta a consciência moral do Ocidente . Género literário: diálogos.
Jesus Cristo é eterno porque é a resposta à necessidade humana de salvação. Género literário: Evangelhos.
Eu sou efémero porque só escrevo estes disparates. Género literário: facebook.


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Esta misteriosa conjunção entre o acaso e certas necessidades interiores que vão dando forma ao que chamamos "destino".


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Sou católico mas...
E tudo o que se segue ao "mas" dá-me sempre imensas saudades dos ateus. Esses, pelo menos, graças a Deus, não andam a tentar enganar ninguém... nem a si mesmos...


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Adoro os filmes e as novelas.
Quando alguém está muito doente, no fim, aparece sempre um medicamento milagroso ou a pessoa melhora.
Pais e filhos abraçam-se, choram e retomam facilmente uma relação que nunca tiveram.
Quando alguém está na miséria aparece sempre um amigo que o ajuda.
Para as crianças mais isoladas aparece sempre uma criança bondosa que lhe dá atenção....
Se a criança é vítima de bullying aparece sempre um fortalhaço e justo que mete os maus no lugar.
Quando um animal é abandonado aparece logo um lar magnífico de acolhimento.
As meninas feias arranjam namorado.
As filhas dão-se tão bem com as mães e as irmãs.
Os maus alunos são valorizados pelo seu coração.
Os homens ajudam as mulheres sem segundas intenções.
Acaba sempre por prevalecer a justiça nos processos jurídicos.
Os "maus" são sempre apanhados no fim.

Que pena isto tudo ser tão diferente da vida...


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"A mistura do verdadeiro e do falso é muito mais tóxico que o falso puro"
Paul Valéry
'Le mélange de vrai et de faux est énormément plus toxique que le faux pur.'


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O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.
Arthur Rimbaud


***


Roma Antiga. A arma fácil da conspiração e manipulação. Cartas anónimas, forjadas, alteradas. Embuste. Discursos emotivos abusando da ignorância, irracionalidade e sentimentalismo das massas. Sofistas engravatados, falácias tentadoras. Ouvir dizer que ele disse que disse... aceitar por facto o que "ouviu dizer". Fidelidade e traição.
A fácil manipulação das massas.
Retórica.
Para a turba todos os simulacros parecem tão reais.
Avança o facilitador, prepara a cena e entra "o ...honrado". Um comboio de "honrados", uma luta entre "honrados". Nunca vi tanto homem honrado de um lado e do outro. Catervas de honrados contra súcias de honestos.
O sangue do povo ao serviço da ambição pessoal.

Yet Brutus says he was ambitious,
And Brutus is an honorable man. (3. 2.)
William Shakespeare


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... a proliferação das mídias audiovisuais e interativas subverteu as vivências temporais, contribuindo para comprimir as durações, desmaterializar o espaço e expropriar certas zonas da experiência subjetiva.
...Entre outros fenômenos que marcam o espírito desta época, Virilio examina o paradoxo entre velocidade e inércia; as transformações das experiências em comum, suscitadas pelo COMPARTILHAMENTO COMPULSÓRIO DE INFORMAÇÕES e pelos MONITORAMENTOS CONTÍNUOS; as implicações d...a virtualização que acompanhou o desenvolvimento da vida on-line, bem como as novas formas de isolamento e dispersão que vieram junto com a expansão das redes digitais e a multiplicação das telas...
...esse modo disruptivo ou “inútil” de experimentar o tempo foi modulado por um arsenal de máquinas da visão que tenderam a canalizar essa breve descontinuidade por meio de velozes efeitos de montagem, tornando cada vez mais obsoletos os exercícios do olhar contemplativo e da vida imaginativa...
Essa logística de percepção tem acelerado os ritmos e racionalizado o que é subjetivo, como parte de um processo maior de HOMOGENEIZAÇÃO SENSORIAL, generalizando assim um tipo de temporalidade em que a interioridade psicológica é continuamente neutralizada. Nessa tentativa de regularizar os biorritmos com vistas a torná-los compatíveis com as novas exigências sociais, começou a ser ofertado um crescente menu de próteses – desde os dispositivos da ubiquidade até os que permitem alterações metabólicas, ajustes no humor e turbinações neurocognitivas.
"sociedade de controle"
 https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1161198733901336&set=a.215572555130630.54246.100000336628979&type=3&theater


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quinta-feira, 10 de março de 2016

A anatomia da melancolia
Um labirinto verbal que é um consolo para a alma. Um bálsamo literário.
Um hino ao "prazer de ler".
"the greatest work of prose of the greatest period of English prose-writing”







Anatomia da Melancolia










Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut justificeris in sermonibus tuis, et vincas cum judicaris.
Ecce enim in iniquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi.
Asperges me hysopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea justitiam tuam.
Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Ierusalem.
Tunc acceptabis sacrificium justitiae, oblationes, et holocausta: tunc imponent super altare tuum vitulos.




terça-feira, 8 de março de 2016









Ein Portrait



Heidegger and Fritz Blum 1906



"A arte é uma droga que gera dependência"
Marcel Duchamp


Yves Pires - Sculptures -



ASK Frank Wan


Frank, qual é a sua opinião em relação aos videogames? 2
Não sei se reparaste neste pormenor MM.
Passados 3 000 anos ainda não escapámos à estrutura do mitema: homem bom luta e vence homem mau por uma causa justa.
A violência ao serviço do bem. O mitema de Shaolin, dos Templários, etc....
Variação futebolística: tribo bem organizada e irmanada vence a outra tribo.

Essa é sempre a linha de força de todas as narrativas, de Homero à Bíblia, dos filmes aos videogames.
Estrutura narrativa jurássica que não sai de moda.
Se quiseres saber porquê lê a obra de um antropólogo que morreu recentemente: René Girard.
Se quiseres, antropologicamente, tens aí um dos segredos do "sucesso" do cristianismo.
E também tens o segredo do insucesso do cristianismo: o "louco" Jesus pede aos homens a loucura de "amar os inimigos" e "dar a outra face", i.e., acaba com o ciclo da devolução da violência, do equilíbrio da justiça e dos atos por mérito e devolução... e mergulha no abismo do amor.
Não te assustes, os homens trataram logo de "organizar o amor" (ahahahahahaha contradição nos seus termos) em convenientes religiões com sacerdotes gordinhos que fazem uns discursos e recebem uma gorjeta.

ASK


O que fazer depois de perder o pai?
A perda sempre depende da relação que você tinha com o seu pai. Se bem que a dor, estranhamente, por vezes, seja pior com o progenitor com o qual se tinha mais márelação - é como se ficasse uma amargura no ar por tudo o que não se conseguiu construir na relação em vida.
Recentemente vi uma pessoa que perdeu o pai. Ele anda a visitar os amigos do pai. Apercebi-me disso e disse-lhe "andas a revisitar o mundo do teu pai para te despedir dele".
Tem-lhe feito muito bem. Nós contamos-lhe coisas do pai dele (por vezes mentimos, mas já se sabe, morto é sempre uma pessoa espectacular). Ele ri-se, ouve as peripécias, e diz"não tinha ideia que o meu pai era assim".
Esse seria o meu conselho: visite os amigos dele, oiça histórias do velho, visite muitas vezes a última casa dele, fale com pessoas da idade dele mesmo que não tenham sido amigas dele sempre partilharam os mesmos acontecimentos sociais e históricos.
E vou avisando: você vai mudar. Vai sentir coisas diferentes em relação a outras pessoas e, durante uns tempos, tenha cuidado consigo: você vai ter reações inesperadas e sentir coisas inusitadas.
Outro aviso: o luto é por ondas.
Há momentos que parece que esqueceu e, de repente, bate uma coisa que esmaga o coração. Depois passa. Depois volta. Depois, passa muito tempo e parece que acabou...e volta com violência.
Visite o túmulo as vezes que necessitar.
Mais dois avisos:
1. ele está contigo, dentro de ti e à volta de ti. Não tenha dúvidas.
2. Homem chora.
Chorar lava a alma. Como diz o Kundera "quando se começa a chorar, aproveita-se, e chora-se por tudo". Faça isso: aproveite e chore por tudo na sua vida.
Pode contar comigo, eu sou cinturão (cinto) negro em sofrimento. A melhor forma de lidar com o sofrimento é sofrendo. Não existem anestesias.
Grande abraço

segunda-feira, 7 de março de 2016


O café dos exilados interiores.


"Here the physiological is a symbol of the logical."
Ludwig Wittgenstein




domingo, 6 de março de 2016


O homem tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus.
PAPA BENTO XVI



Der Mensch trägt ein Verlangen nach dem Unendlichen in sich, eine Sehnsucht nach Ewigkeit, eine Suche nach Schönheit, einen Wunsch nach Liebe, ein Bedürfnis nach Licht und Wahrheit, die ihn zum Absoluten drängen; der Mensch trägt die Sehnsucht nach Gott in sich.


sábado, 5 de março de 2016




Quando prepara o transe, o xamã bate o tambor, chama os seus espíritos auxiliares, fala uma "língua secreta" ou a "língua dos animais", imitando sua voz e sobretudo o canto dos pássaros. Acaba por obter um "estado segundo" que põe em ação a criação lingüística e os ritmos da poesia lírica. Ainda hoje, a criação poética continua sendo um ato de perfeita liberdade espiritual. A poesia refaz e prolonga a língua; toda linguagem poética começa sendo uma linguagem secreta, ou seja, a criação de um universo pessoal, de um mundo perfeitamente fechado. O ato poético mais puro tenta recriar a língua a partir de uma experiência interior que, assemelhando-se por isso ao êxtase ou à inspiração religiosa dos "primitivos", revela o fundo das coisas. É a partir de criações lingüísticas dessa ordem, possibilitadas pela "inspiração" pré-extática, que as "linguagens secretas" dos místicos e as linguagens alegóricas tradicionais se cristalizaram depois.Coleccionei inimigos... e estes juntaram-se e vingaram-se...

D.van Dalen (Author)


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M Elíade

Hölderlin chega ao indizível e afunda-se na loucura, o místico não. O místico consegue ressintetizar o inefável e transformá-lo em algo comunicável.



sexta-feira, 4 de março de 2016



A filosofia é um exercício de "análise" e não um "pacote de doutrinas". Nos termos de Wittgenstein é uma "crítica da linguagem",  sobretudo da linguagem filosófica.
A ciência produz conhecimento sobre o mundo, já a filosofia elucida "proposições problemáticas", portanto, a filosofia é a "afinação" do instrumento linguagem de forma a obter uma clarificação lógica dos pensamentos.
Em Wittgenstein "pensamento" e "linguagem" são duas entidades.
Entre o que se pensa e o que se diz há uma "tradução".
No pensamento há "imagens dos factos do mundo" que podem ser organizados logicamente. A linguagem é "apenas" uma forma simbólica de transmissão do pensamento.
Segundo Wittgenstein as "mentes teorizantes" deixam-se enredar no discurso. A tradição filosófica e o mundo estão cheios de malabaristas palavrosos e vazios.
Silêncio 2


***

Segundo o jovem Wittgenstein, a filosofia não "resolve" problemas, mas "dissolve" problemas.
A resolução de um problema filosófico não depende da "realidade", depende da "consciência" que o sujeito tem da mesma e, essa consciência, é mediada pela linguagem, logo,  não tem que se tomar consciência da "realidade" mas sim do "disfuncionamento linguístico". A tarefa  da filosofia seria, então, não mais que uma "terapia" que repusesse o bom uso da linguagem.

E foi assim que eu "dissolvi" mais 300 euros  nestes  dois volumes volumosos e exaustivos
Silêncio 1













quinta-feira, 3 de março de 2016


" A modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente, a metade da arte, a outra metade é o eterno e o imutável"

“La modernité, c'est le transitoire, le fugitif, le contingent, la moitié de l'art, dont l'autre moitié est l'éternel et l'immuable."
Charles Baudelaire

***

No carrossel das explicações do mundo contemporâneo:
o mundo é pós-moderno para Lyotard; pós-industrial para Bell; tardo-capitalista para Habermas; neobarroco para Calabrese; mediático para McLuhan e está no Fim da História para Fukuyama.
Até fiquei tonto.



terça-feira, 1 de março de 2016

"A coisa em si (Ding an Sich) está muito escondida"
"The thing itself (Ding an Sich) is deeply veiled"


Imanuel Kant










“I had to philosophize. Otherwise, I could not live in this world.”
― Edmund Husserl
Husserl und Heidegger



segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

"Most people go through life with a whole world of beliefs that have no sort of rational justification, and that one man’s world of beliefs is apt to be incompatible with another man’s, so that they cannot both be right. People’s opinions are mainly designed to make them feel comfortable; truth, for most people is a secondary consideration."
— Bertrand Russell, The Art of Philosophizing
and Other Essays (1942), Essay one, The Art of Rational Conjecture.














Wittgenstein's Phd. Dissertation in Cambridge



Caminho

                I

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

                    Camilo Pessanha








domingo, 28 de fevereiro de 2016

"Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar


 – e de repente aqui está ela: a Náusea. Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta. Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca… E subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi. A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu."
JP Sartre


Il faut les aimer les hommes. Les hommes sont admirables. J’ai envie de vomir, et tout d’un coup ça y est la nausée. C’est donc ça la nausée, cette aveuglante évidence.














Le Mur

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Poeta
Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
...
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.
Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.
Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.
Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.
Teixeira de Pascoaes



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

É melhor viveres a tua própria vida (dharma) de forma imperfeita do que imitar perfeitamente a vida (dharma) de outra pessoa.
Bhagavad Gita 18:47


मूल श्लोकः
...
श्रेयान्स्वधर्मो विगुणः परधर्मात्स्वनुष्ठितात्।
स्वभावनियतं कर्म कुर्वन्नाप्नोति किल्बिषम्।।18.47।।


śreyān sva-dharmo viguṇaḥ
para-dharmāt sv-anuṣṭhitāt
svabhāva-niyataḿ karma
kurvan nāpnoti kilbiṣam



Última Visio


Quando o homem resgatado da cegueira
Vir Deus num simples grão de argila errante,
Terá nascido nesse mesmo instante...
A mineralogia derradeira!

A impérvia escuridão obnubilante
Há de cessar! Em sua glória inteira
Deus resplandecerá dentro da poeira
Como um gasofiláceo de diamante!
Nessa última visão já subterrânea,
Um movimento universal de insânia
Arrancará da insciência o homem precito...
A Verdade virá das pedras mortas
E o homem compreenderá todas as portas
Que ele ainda tem de abrir para o Infinito!
Augusto dos Anjos



"O Absoluto é a noite e o dia mais jovem do que ela, e a diferença entre ambos, assim como a luz que sai da noite, é uma diferença absoluta. O nada vem em primeiro lugar e dele sai todo o ser, toda a diversidade do finito. Ora a tarefa da filosofia consiste em unir estas pressuposições, pôr o ser no não-ser como devir, a divisão em dois no Absoluto como a sua manifestação, e o finito no infinito como a vida."
G.W.F. Hegel


"Das Absolute ist die Nacht, und das Licht jünger als ...sie, und der
Unterschied beider, sowie das Heraustreten des Lichts aus der Nacht, eine absolute Differenz - das Nichts das Erste, woraus alles Sein, alle Mannigfaltigkeit des Endlichen hervorgegangen ist. Die Aufgabe der Philosophie besteht aber darin, diese Voraussetzungen zu vereinen, das Sein in das Nichtsein - als Werden, die Entzweiung in das Absolute als dessen Erscheinung, das Endliche in des Unendliche - als Leben zu setzen."







οὕτως καὶ ὑμεῖς λογίζεσθε ἑαυτοὺς εἶναι νεκροὺς...
Devem pensar em vós mesmos como estando mortos...
Romanos 6:11
...
A conversão de São Paulo, 1600, Caravaggio




Pormenor


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Nada Brahma

Comigo as minhas vozes instam
Para que eu retome a Poesia.
Enfada-as o halo de silêncio
Após a audição da fala nobilíssima.
A linha anapeste, que elas raro ouviram,...
Adquire o toque do alabastro, face à rapsódia
Repetida sem acento, ad nauseam,
Na estridente cacofonia do jongleur.


DESEJOS VÃOS, Florbela Espanca

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!
Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...








Florbela Espanca - Templo Cultural Delfos